O que é Terapia Biológica?

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Terapia Biológica

Na última sexta-feira iniciei meu tratamento com Remicade (infliximabe). Já estou desenvolvendo um post sobre o tratamento com ele, bem como um post sobre o Humira (adalimumabe). Além disso, também vou fazer uma série de posts sobre o meu tratamento específico com o Remicade contendo as minhas impressões pessoais sobre o assunto. Mas antes disso, convidei a Anna Luiza Neurauter, B.Sc. em Biomedicina, para falar um pouco sobre a terapia biológica.

A terapia biológica envolve uma nova categoria de medicamentos que tem revolucionado o tratamento tanto de doenças inflamatórias relacionadas à imunidade quanto de alguns tumores. A partir do conhecimento dos mecanismos de ação e progressão dessas doenças, é possível descobrir as moléculas que atuam piorando o quadro dos pacientes e, então, desenvolver bloqueadores capazes de desativar tais moléculas, como um tipo de anticorpo contra elas. Esses medicamentos são desenvolvidos por engenharia genética e se voltam contra alvos específicos que podem estar causando ou piorando a doença, podendo ser administrados também com outros tipos de tratamento.

Em relação aos tratamentos relacionados ao câncer, a terapia biológica vem surgindo através do descobrimento de marcadores tumorais, que são genes ou proteínas que são produzidos por células tumorais. Inicialmente, a pesquisa desses marcadores buscava encontrar moléculas que indicassem a presença do tumor de forma precoce, o que levaria a um diagnóstico mais rápido e a um tratamento na fases mais iniciais da doença, aumentando as chances de cura. Atualmente, alguns marcadores descobertos tem participado também de pesquisas que buscam desenvolver bloqueadores do ciclo da célula tumoral. Para ficar mais claro, vamos a um exemplo: o EGFR (sigla em inglês para “receptor do fator de crescimento epidérmico”) é considerado um marcador tumoral e já foi descoberto que ele participa de muitos processos que contribuem para o desenvolvimento de cânceres, como o de pulmão. Assim, bloquear a sua ativação é interessante para evitar que a doença se desenvolva. Uma das formas de realizar esse bloqueio seria utilizando um anticorpo que se ligasse ao EGFR e impedisse a sua ativação e, consequentemente, viesse a impedir seus efeitos que facilitam a progressão do câncer.

Já em relação às doenças inflamatórias que sofrem influência imunológica, os medicamentos agem contra respostas imunes indesejáveis. Muitos deles tem sido usados e testados para tratamento de doenças auto-imunes, como a artrite reumatóide, espondiloartropatias, entre outras. Além de melhorar os sintomas, a terapia biológica nesses casos tem sido relacionada com mudanças no curso da doença, até mesmo com possibilidade de remissão.3 Para isso, são utilizados anticorpos contra algum componente do sistema imunológico que pode estar agravando a doença. Um bom exemplo é o uso de agentes que são anticorpos contra a o TNF-α (sigla em inglês para “fator de necrose tumoral alfa”), como o adalimumabe, infliximabe e etanercepte. O TNF- α é uma citocina pró-inflamatória produzida por células imunológicas, que exerce seus efeitos quando é reconhecida por seu receptor e se liga a ele. Esses medicamentos citados ligam-se a essa citocina, impedindo sua ligação ao seu receptor, o que evita tais efeitos (dentre eles, o estímulo à produção de outras citocinas inflamatórias, como IL-1 e IL-6). Assim, há supressão de alguns mecanismos inflamatórios.

Em relação às DII, à medida que se foi conhecendo a fisiopatologia das doenças, a terapia biológica surgiu como uma opção de tratamento para pacientes refratários à terapia convencional (mesalazina, corticosteróides, azatioprina), com o objetivo de induzir a remissão da doença e evitar procedimentos cirúrgicos. Atualmente, sabe-se que a produção de citocinas pró-inflamatórias por células imunes presentes na mucosa intestinal, principalmente o TNF- α, contribuem para a perpetuação da inflamação crônica desse tecido. Os agentes biológicos que vem sendo utilizados no tratamento das DII são o infliximabe e o adalimumabe, ambos anti-TNF, e os estudos com essas drogas vem mostrando bons resultados. Entretanto, esse tipo de terapia pode levar à imunossupressão, o que traz alguns efeitos colaterais como infecções oportunistas e, por isso, deve ser avaliada junto ao médico que conhece as indicações e contraindicações do tratamento para cada caso.

Referências:

ALBERT EINSTEIN. Sociedade Beneficiente Israelita Brasileira. Terapia Biológica oferece vida normal a pacientes reumatológicos. 2009.

PACHECO, FA et al. Marcadores tumorais no câncer de pulmão: um caminho para a terapia biológica. J. Pneumologia, v.28, n.3, p.143-149. São Paulo, 2002.

CRUZ, BA. Terapias Biológicas em outras Doenças Auto-Imunes. Rev Bras Reumatol, v.47, n.6, p.446-449. Belo Horizonte, 2007.

KATZUNG, BERTRAM G. Farmacologia Básica e Clínica. 10ª ed. Porto Alegre: AMGH Editora Ltda, 2010.

CARVALHO, ATP. Terapia Biológica. Revista HUPE, UERJ, v.11, n.4, p. 33-40. Rio de Janeiro, 2013.