RESPOSTA DE UM PORTADOR DE DOENÇA DE CROHN À “EUTANÁSIA”

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Dia 06/08/2015 foi veiculado na impressa (links aqui e aqui) uma notícia acerca de uma mãe de Minas Gerais que assassinou brutalmente o filho, portador de doença de Crohn, afirmando eutanásia, ou seja, a tentativa de aliviar o sofrimento do filho.

Demorei pra pensar em como escrever este comentário, mas tomei a decisão porque acho extremamente importante explicar para a população geral o que é a tal doença que o rapaz tinha e qual a minha opinião sobre o caso.

Com que autoridade eu falo isso? Simples, eu sou portador de doença de Crohn.

Minha decisão em escrever este pequeno texto foi tomada depois de eu ler centenas de comentários defendendo a mãe do portador (hein??), outras dezenas alegando que a doença de Crohn é coisa do demônio, outros muitos comentários preconceituosos fomentados pela total ignorância ao assunto. Tudo piorou quando li notícias escritas por jornalistas que claramente não se deram ao trabalho de pesquisar sobre o que estavam escrevendo.

Primeiro, vamos começar entendendo o que é a eutanásia. Do ponto de vista médico, é o ato de proporcionar morte sem sofrimento a um doente atingido por afecção incurável que produz dores intoleráveis. Por outro lado, do ponto de vista jurídico, é o direito de matar ou morrer por alguma razão.

Desculpem-me, mas eu não consigo entender como assassinar um filho a golpes de barra de ferro (“lebanca”, ferramente usada para abrir buracos) pode ser vista como uma atitude de se aliviar sofrimento.

A doença de Crohn é sim uma enfermidade crônica e pode produzir dores, muitas vezes fortíssimas. Mas, de fato, a morte é a solução?

A minha história com a doença é complexa, tanto que no último dia 01/08/2015 fui convidado a contá-la no I Encontro de Portadores de Doenças Inflamatórias Intestinais do Brasil.

Para os leitores do meu blog que estavam na plateia o assunto dessa pequena palestra não foi novidade. Mas muito outros que não me conheciam ficaram horrorizados. Por muito tempo eu sofri muito, senti dores muito fortes, emagreci horrores e muito do meu sofrimento foi agravado pela falta de diagnóstico e pelo preconceito sofrido.

Já contei aqui que eu fui demitido, que fui ridicularizado por muita gente (inclusive por médicos), contei também que até hoje tenho pessoas próximas (familiares, inclusive) que não chegam perto de mim com o medo de “pegar” a doença.

Eu passei por muita coisa e – confesso – já pensei em morrer. Mas é óbvio! Quando você vai a um médico que diz que você vai morrer porque a doença é grave e você tem pouco tempo de vida, o que você faria? É óbvio quando você se vê diante de uma situação de trancar a faculdade, ser demitido, perder os amigos e até a família.

Depois de passar por tudo isso obviamente se pensa na morte! Várias vezes minha mãe deve ter ouvido de mim uma frase de “quero morrer”. O desespero quando o seu mundo acaba é enorme.

Porém eu resisti. Não às dores. Muito mais do que isso! Eu resisti à falta de informação.

A pior dor de um portador de uma doença desconhecida é o preconceito! O preconceito do médico que estudou pouco e não tem humildade de dizer a um paciente que não é capaz e tratá-lo. Preconceito das pessoas que acham que ter diarreias absurdas durante o dia é frescura. Preconceito das pessoas que acham que vão “pegar” a doença pelo simples fato de respirar o mesmo ar de um portador.

E para combater o preconceito a única solução é a informação.

Para mim, a mãe do nosso “irmão intestinal”, Guilherme, não agiu por compaixão, mas sim por egoísmo. Egoísmo alimentado pela ignorância, pela falta de informação, por medo…

Por isso, vou continuar aqui, escrevendo no blog, tentando levar um pouco de paz e conforto para os portadores e familiares.

O que mais me motiva são as diversas mensagens e e-mails enviados por portadores e familiares de doença de Crohn e Retolite Ulcerativa que, de alguma forma, se interessam em saber mais.

A comunidade DII está de luto!

“A falta de informação mata”.